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segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Todos comemora e nós pega o peixe

Vocês se lembram da polêmica do nós pega o peixe?

O bafafá já vai fazer dois anos: foi em maio de 2011. Um livro com o aval do MEC defendia a tese de que construções com erro de concordância podiam ser aceitas, não eram crimes hediondos. Era o Por uma vida melhor, da coleção Viver, aprender.

Na ocasião, logo me veio à cabeça a moda do #todoschora e afins. Parece que passou, porque não vejo muitas hashtags como aquela por aí.

Houve caça às bruxas às autoras, que depois desconversaram, alegando que jamais quiseram ensinar errado.

Sei não: na minha época, livro didático era espécie de bíblia; o que lá estava era verdade absoluta, não podia ser questionado. Acredito que hoje, mais do que nunca, essa aura deva ser mantida.

Se existe norma culta, o livro deve ensiná-la e estimulá-la. Isso é bem diferente de discriminar erros e tratar mal quem errou.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Por quê?

Esta postagem é uma resposta a Paty, que gentilmente foi aos comentários do blog com a seguinte dúvida: como se usam os porquês?

(Parêntese: em Portugal a lógica que veremos abaixo é ignorada, sabe-se lá por quê.)

Vamos ao mais fácil. Escrevemos porquê quando este for um substantivo, sinônimo de motivo. É importantíssimo colocar um artigo antes. Assim, temos:

Eu não entendi o porquê desse ataque de pelanca.

Você sabe usar os porquês sem errar?

Dito isso, vamos em frente, agora com as perguntas e respostas.

É uma armadilha dizer que, nas perguntas, teremos sempre por que e, nas respostas, porque. Há exceções, mas, a rigor, é mais ou menos isso.

Tenho uma dica. Se você puder acrescentar a palavra razão, teremos por que.

Falaram por que [razão] o show atrasou tanto?

Viram que a razão não alterou o sentido da frase?

Quando o por que vier no fim, coladinho ao ponto final, manda a regra que o acentuemos.

O show atrasou tanto por quê?

Quando respondemos, temos porque.

O show atrasou porque a cantora fez uma festinha no camarim.

Há, ainda, uma quarta situação. O por que, separado, pode significar pelo qual.

A estrada por que viemos está toda esburacada.

Notem que se a gente tentar botar a razão a frase perde o sentido.

Mas o que seria a língua sem as exceções, não?

Podemos ter o por que razão numa afirmação e o porque numa pergunta.

Eu fiquei horas imaginando por que o show atrasou tanto.

Só porque o show atrasou você quis ir embora?

Não tem por que você ir agora.

Entenderam as diferenças? Depois a gente explica cada uma.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Capitãs e presidentas

Sem entrar no mérito de preferências políticas, temos grande chance de ver, no dia 1º de janeiro de 2011, uma mulher assumir a Presidência da República. Como a chamaremos? Presidente ou presidenta?

A própria campanha de Dilma Rouseff ainda não se decidiu. Confesso que eu também não tenho opinião definitiva sobre o assunto. A questão não é se está ou não no dicionário. O problema é o costume 'machista' do idioma - o mesmo que se manifesta e é aceito na frase Maria, Joana, Patrícia, Fernanda e José saíram cansados da festa.

O Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (Volp, para os íntimos) registra as duas formas. Caso Dilma vença, negar chamá-la de presidenta alegando ser erro não procede.

A discussão é interessante. Vejamos nas Forças Armadas. Há na caserna quem defenda o uso das patentes exclusivamente no masculino. O Volp reconhece, numa rápida busca, capitã, soldada e marechala.

Vamos combinar que marechala não soa lá muito bonito. Mas e capitã? Dia desses nós nos deparamos com o caso de uma policial militar que se inscreveu no concurso para Rainha do Carnaval. Veio a dúvida de como fazer o título. Como vocês reagiriam a Capitão da PM quer ser musa da folia?

Por outro lado, tenho na ponta da língua um argumento contra patentes no feminino. Como seria no caso de cabo? Caba? Não à toa, não consta do Volp.

Entenderam como é complicado? Causa estranheza. Por que podemos dizer a capitã e somos obrigados a escrever a cabo? Mas se algumas palavras têm correspondentes no feminino, caem os argumentos contra o seu uso. Vão dizer o quê? Que é feio?

O que vocês acham?

domingo, 24 de maio de 2009

-,

Pode causar estranheza a vírgula colada ao travessão.

Meu tio, especialista em astrofísica - ciência que estuda a evolução e a constituição de planetas e estrelas -, vai dar uma palestra sobre o Sol amanhã.

Antes de explicá-la, acho bacana a gente entender um pouco do travessão.

Ele é mais visto em diálogos. Cada - indica alguém falando.

Mas o travessão também serve para intercalar frases em outras. Essa função, vejam bem, pode ser muito bem exercida por vírgulas ou parênteses.

A decisão sobre qual dos três usar não é uma questão de certo ou errado, é mais uma discussão de estilo. Vocês certamente encontrarão argumentos a favor e contra. Por isso, eu me sinto à vontade para dividir os meus.

O problema da vírgula numa intercalação é picotar demais a frase. Vamos pegar o exemplo lá de cima:

Meu tio, especialista em astrofísica, ciência que estuda a evolução e a constituição de planetas e estrelas, vai dar uma palestra sobre o Sol amanhã.

Viram quantas vírgulas? A frase fica capenga. O que a torna complicada é a explicação da explicação. Dizemos que meu tio é astrofísico e resumimos o que é isso.

Então, por que não usar parênteses? Aí é uma questão pessoal. Acho o parêntese um corpo estranho. Já foi dito que quem o usa não sabe escrever, porque estaria pegando um atalho malfeito para explicar qualquer coisa.

Não vejo dessa forma radical, mas eu implico com parênteses. Acho uma inserção totalmente estranha à coesão do texto. O que não sei explicar é por que não tenho essa sensação com os travessões.

Usar travessão é elegantérrimo. Você dá uma pausa, mas não insere nenhum corpo estranho; fica uma construção bem harmoniosa.

Posto isso, voltemos ao início do post: -,

Notem que desde o começo falei de inserção, de enxerto. Travessões - e a regra se aplica também a parênteses - não 'comem' nada da frase que os receberá. Eles abrem espaços e se instalam ali.

Vejam então o que acontece se, do primeiro exemplo, a gente tirar o que veio dentro do travessão:

Meu tio, especialista em astrofísica, vai dar uma palestra sobre o Sol amanhã.

Muito bem. Vamos dar uma olhada a um trechinho dessa frase:

...astrofísica, vai...

Entre astrofísica e vai tem uma vírgula. Uma, não duas; é justamente entre astrofísica e a vírgula o espaço que o travessão vai abrir.

Entenderam então por que a vírgula continua lá?

Meu tio, especialista em astrofísica - ciência que estuda a evolução e a constituição de planetas e estrelas -, vai dar uma palestra sobre o Sol amanhã.

Não acho o -, estranho. Mas tem gente que acha - e tenho aqui uma sugestão. Neste mesmo post já a usei.

Travessões - e a regra se aplica também a parênteses - não 'comem' nada da frase que os receberá.

Notem que aí em cima não tem vírgula nenhuma. No entanto, optei pelo travessão, e não por vírgulas ou - argh - parênteses.

Entendo que ali eu precisava de uma pausa importante, para dar uma ênfase. Esse destaque ficaria solto se estivesse entre vírgulas - o que cansaria o texto -, e pobre se visse trancado por parênteses.

O mais legal é que o a regra se encaixa entre o sujeito e o predicado. E nós estamos carecas de saber que separá-los por vírgula é um gato com J.

Acho mais elegante quando os travessões aparecem sem sujar muito o texto, como julgo ser o caso acima. Vejam: a frase está lá, os travessões não comem nada, mas há a observação de que a regra também se aplica a parênteses; ambas estão lá. Sem precisar de um milhão de vírgulas...

Ainda falaremos do ponto e vírgula, esse esquecido.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Domingo, em Batalha Naval

Mais uma rodada de testes sobre o hífen.

E vocês? O que mais chateia na Reforma?

domingo, 13 de abril de 2008

Procuram-se respostas...

...para a questão do procuram-se.


Este, tal como o pesadelo da flexão do infinitivo, é uma afta da língua. Encontramos pás de exemplos errados: Procura-se médicos, vende-se casas, vê-se soluções.


Ah, então toda frase que tiver o -se vai para o plural?


Lamento dizer que nada no português é simples.


E digo mais: no caso do procura-se, não há uma 'fórmula', uma dica. Há, sim, uma lógica - mas ela só funciona se os fundamentos do idioma estiverem bem sólidos.


Em outras palavras, não dá para escapar da gramática.


Mas ela não é tão má quanto parece!


Então vamos à luta, para tentar não mais errar isso.


O primeiro passo é identificar que se é esse. Essa palavrinha pode assumir várias funções, mas podemos nos limitar a apenas duas, o que realmente nos interessa.


O se pode nos dizer que não há sujeito na frase. Uma dica preciosa para achar o sujeito numa frase é pegar o verbo principal e perguntar quem ou o quê.

Vamos começar com um exemplo fácil.

O padre proferiu um duro sermão no púlpito.

Há, aqui, um verbo: proferir. Usando a fórmula, a gente pergunta: quem proferiu?

O padre. Taí o sujeito da frase.

Agora, vamos à próxima:

Vive-se maravilhosamente aqui.

Quem vive?

A frase não diz. O sujeito está indeterminado.

Outra:

Precisa-se de empregados qualificados para a obra da ponte.

Ih... e agora? Quem precisa? A frase, mais uma vez, não diz. Acha que é fácil? Então vamos lá:

Ainda dá tempo para se tomarem algumas providências.

Frasezinha feia, não? Mas o duro é que a frase está correta.

Confesso que peguei pesado, porque se trata de uma oração reduzida, mas isso é gramática demais. Vamos voltar à regra da pergunta: o que toma? A resposta, porém, aparece quando a gente muda um pouquinho a questão. O que é tomado?

Viram? Taí um lindo exemplo de voz passiva. Você se lembra: na voz ativa, a coisa faz; na passiva, a coisa é feita. Existe uma forma mais curta de escrever isso. Faz-se a coisa.

Só que, na voz passiva, existe um sujeito. No caso acima, a coisa é sujeito de ambas as frases.

Como o sujeito manda na frase, devemos segui-lo.

Conserta-se janela. O que é consertado? A janela. E se a gente pôr janelas? Aí fica assim:

Consertam-se janelas.

Tá bom, vocês querem saber se tem uma fórmula. Ter, tem, mas vai depender de uma... decorebinha. Nada que com o uso contínuo você não guarde. É a regência. Ou a regra do quem coisa, coisa alguma coisa.

Falemos de regência depois. O pulo do gato, então, é identificar na frase o quem ou o quê.

1) Demitiu-se o diretor porque se elevaram os gastos na empresa.
2) Compraram-se várias ações ontem. Implicou-se em ótimos resultados.

Vejam que no exemplo 1 temos o diretor foi demitido e os gastos foram elevados. Temos aí duas vozes passivas. Já no exemplo 2, apesar de várias ações foram compradas, temos o em, que não nos deixa dúvida: os ótimos resultados são complemento, e não sujeito, que está oculto. Afinal, o que implicou? Quem implicou? Não foram os resultados. Foi alguém ou algo indeterminado.

O tema é espinhoso. Voltaremos a ele...

segunda-feira, 7 de abril de 2008

O pesadelo

Este assunto foi um pedido da Gisele. Este post, então, é dedicado a ela.

Toda disciplina escolar tem a sua hora do pesadelo. É aquele assunto que desafia o mais obstinado CDF. Em Química, por exemplo, eu sofria nas delicadas e instáveis equações do cálculo estequiométrico. Na Matemática, penava nas contas da geometria analítica espacial.

Qual seria o pesadelo em Português? Acredito que haja outras dificuldades nas áreas mais específicas da matéria, mas no campo experimental, no dia-a-dia, arrisco a dar um palpite: é a flexão do infinitivo. Traduzindo:

Os estudantes fugiram para não ser ou serem presos?

Não há gramático nesta terra que crave uma regra. Os mais notáveis, como Gama Cury, Ernani Terra, Paschoal Cegalla, Pasquale e Sérgio Nogueira, concordam num ponto: depende do ouvido.

Quer dizer que vale tudo?

Não necessariamente. Casos cascudos como o exemplo acima são raríssimos, mas são comuns erros iguais a este:

A escola autorizou os alunos a viajarem para Minas Gerais.

O mesmo povo que prega a avaliação do ouvido (ou a eufonia) nos casos raros é taxativo em relação à frase acima: é errado, sim. Feio. Um deslize.

Vamos então tentar pôr fim a esse mar de dúvidas.

FICA NO SINGULAR...

1 - Quando o verbo é composto.

Reivindicamos estudar. Elas pretendem comprar a loja inteira!

2 - Quando o sujeito é o mesmo.

Eles recorreram à Justiça para derrubar a liminar. Nós não temos motivos de nos orgulhar.

3 - Quando o verbo complementa outro verbo, um substantivo ou um adjetivo, ou quando complementa uma voz passiva.

Todos têm permissão de entrar no templo. Nós nos arrepiamos com a emoção de ver o show. Os candidatos estão proibidos de levar celulares. Nós ficamos cansados de ouvir falar de tanta corrupção. Os grevistas desistiram de negociar e farão piquetes, mas a empresa autorizou os gestores a cortar o ponto dos manifestantes.

VAI PARA O PLURAL...

1 - Quando há sujeito próprio.

O professor permaneceu de olho, mas não viu os alunos colarem. Os pesquisadores garantiram serem nocivos os repelentes à base de cloro.

2 - Para evitar dúvidas.

O presidente convocou os minstros para (*) sobre as novas medidas. Falar ou falarem? Depende. Se quem vai falar é o presidente, fica no singular. Se são os ministros, é falarem.

Agora é que a porca torce o rabo.

3 - Quando é voz passiva com verbo de ligação.

Lembram-se do exemplo lá de cima?

Os estudantes fugiram para não ser ou serem presos?

Não tem bem uma regra. A coisa é muito subjetiva, depende demais da avaliação da frase. No exemplo acima, a noção de voz passiva tem de estar muito viva na cabeça da pessoa. Lembram? A polícia prendeu os estudantes. Os estudantes foram presos pela polícia. Até aí, tudo bem. O problema é identificar isso no meio da frase, com um infinitivo, ainda mais amparado pela premissa de que não há norma acerca disso.

Existe um efeito-caneca para isso. Basta desmembrar a frase com um que:

Os estudantes fugiram para que não fossem presos.

Vêem como aí a voz passiva brota como cogumelos depois de uma tempestade?

Os trabalhadores aprovaram as reivindicações para serem cobradas na próxima reunião.

A banca examinadora preparará neste fim de semana os testes para serem aplicados mês que vem.

Outra dica: quando o termo em dúvida não tiver um plural anterior, como foi o caso do último exemplo, o infinitivo vai para o plural.

O assunto é polêmico, os casos, raros; mas para mim o tema detém o título de mais espinhoso do idioma. Por isso, deve ser estudado e debatido.

Espero não ter cansado vocês.

segunda-feira, 31 de março de 2008

Em vez de ou ao invés de?

Sugestão do companheiro Rafael!

Essa é mais uma dúvida freqüente de nossa língua. Muitos já consideram esses dois termos como sinônimos, mas existe, sim, uma diferença.

Digamos que o em vez de seja um curinga. Você pode usá-lo em qualquer situação - e aqui já pintou um efeito-caneca. Todo ao invés de é um em vez de, mas nem todo em vez de é um ao invés de.

Isso porque o ao invés de não é tão versátil. Ele tem uma aplicação bem mais restrita. Indo ao dicionário, você descobre que a palavra invés já significa lado oposto, avesso. Quando montamos o termo ao invés de, queremos associar duas coisas contrárias.

Tudo isso fica mais claro com exemplos.

1) Eu não passei de ano. Eu fui reprovado.
2) Ele não saiu. Preferiu ficar em casa.
3) Nós íamos ao teatro, mas acabamos no cinema.

Vamos ler as três frases. Quais delas têm claramente uma idéia de oposição? As duas primeiras, certo? Nestas, podemos escrever:

1) Ao invés de passar de ano, fui reprovado.
2) Ao invés de sair, ficou em casa.

Já a última frase não reúne idéias opostas. Ir ao cinema e ir ao teatro são coisas complementares. Daí, não podemos usar o ao invés de:

3) Em vez de ir ao cinema, nós fomos ao teatro.

Outros exemplos:

Ao invés de reduzir gastos, aumentou a dívida; ao invés de chover, fez sol... e por aí vai.

domingo, 23 de março de 2008

Deus e o diabo na terra dos sinônimos

Consultar dicionários pode ser uma atividade extremamente divertida!


E não me refiro apenas a palavrões que só existem na Medicina ou na Botânica. Falo das surpresas que pululam de onde menos se espera.


Sinônimos, por exemplo, podem nos surpreender. E eu me escangalhei de rir ao tomar conhecimento de duas constelações de palavras que usamos com freqüência.


A primeira é diabo; a segunda, meretriz.


Ambas têm quase uma centena de sinônimos — e não estou contando as derivações menores.

Comecemos pelo... hum. Vejam abaixo os nomes mais engraçados e escolham como chamá-lo:

anhangüera, arrenegado, azucrim, beiçudo, belzebu, bode-preto, bute, cafuçu, cão-miúdo, cpa-verde, capeta, capiroto, chavelhudo, cifé, cramulhano, demonho, demontre, diangras, diogo,
grão-tinhoso, jurupari, má-jeira, moleque-do-surrão, pedro-botelho, peneireiro, romãozinho, sapucaio, temba e zarapelho.

Agora vamos ver quantas palavras são sinônimo de Deus:

deidade, diva, divindade, nume e potestade.

Viram? Isso dá uma tese. Por que na Terra diabo tem uma centena de sinônimos e deus não tem? Porque Ele não quer que se indexe Seu santo nome em vão? Mesmo que os dicionaristas do Houaiss tenham tido certa preguiça — todo-poderoso e criador, por exemplo, constam como sinônimos, mas não dentro do verbete —, é inegável a criatividade para chamar o... cão-miúdo.

Uma pegadinha: qual o feminino de todo-poderoso? Toda-poderosa? Não. É todo-poderosa. Assim como escrevemos todo-poderosos. Tem a ver com a composição.

Agora vamos para uma constelação bem mais divertida. E que encerra uma polêmica.

alcouceira, andorinha, bagageira, bisca, bucho, cadela, caterina, courão, cróia, dadeira, decaída, égua, galdéria, galdrapinha, horizontal, jereba, lúmia, messalina, mundana, murixaba, paloma, pécora, rameira, rongó, tolerada, vadia, vulgívaga e zoina.

Acabou? Temos ainda mulher à-toa, mulher da comédia, mulher da rótula, mulher da rua, mulher da vida, mulher da zona, mulher de amor, mulher de má nota, mulher do fado, mulher do pala aberto, mulher errada, mulher perdida, mulher pública, mulher vadia...

Engraçado. Se você procurar por médica no Houaiss, vai ver que é uma "certa espécie de alfafa". Eles não dizem que é "mulher que exerce a Medicina". Então por que listar prostituta? Prostituto já não bastava, segundo a ordem machista dos dicionários?

quarta-feira, 12 de março de 2008

Parônimos inúteis

E por falar em escangalhado, palavra que consta da minhas preferidas, acabei de descobrir que ela tem um parônimo.

Escangalhar é quebrar, causar desarranjo. Sei lá, soa mais simpático que avariar. Acho que escangalhar sempre está associado às artes de um menino malcriado.

Escanganhar não tem nada a ver. É o ato de retirar as uvas da haste. Daí deriva uma escanganhadeira. Lindo, não é?

Outra da Itália

As línguas latinas se parecem, mas nem tanto.

A gente, dentro da nossa ignorância, acha que sabe traduzir livremente por aí as palavras só porque acredita que não há diferenças gritantes.

Este caso não se trata de uma diferença gritante, mas é engraçado.

No orelhão, minha mãe penou para conseguir fazer uma ligação — talvez porque, à época, estávamos acostumados a telefones públicos menos modernos. Na terceira tentativa vã, ao pôr o fone no gancho, ela viu no visor algo como scanciare, scangliare, eu sei lá. Quem souber italiano por favor me ajude. Mas aí ela perguntou:

- Scanciare é escangalhado?

Não, não era. Por intuição, essa palavra significava tire do gancho. Não estava escangalhado.

Noiva-cadáver

Essa é velha. Diria que é tão ou mais anciã quanto a confusão envolvendo bicha/fila em Portugal.

Uma vez, na Itália, vendo um comercial de TV, eu me surpreendi. Era um anúncio de um sabonete, não me lembro bem, mas era típico: tinha aquela moça recém-saída do banho, pele limpa, passando o tal produto. No fundo, a narração destoou:

- ...com'è mórbida...

Engraçadíssimo! Mórbido, em italiano, quer dizer macio. Fofo igual à noiva-cadáver.

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

'Hinferninzação'

Outra grande dificuldade da língua diz respeito ao hífen. É, com perdão do trocadilho, um hinferno.

Existem duas categorias principais de uso. Há o hífen de super-homem e há o hífen de dona-de-casa.

O primeiro é o hífen dos prefixos, que têm inúmeras regras. Normas, aliás, que a reforma ortográfica quer apagar. Realmente, não faz sentido você hinfernizar extra-oficial e escrever antiinflamatório tudo junto. Isso seria nivelado por baixo: praticamente tudo perderia o hífen, salvo em super-reforma. Alegam que aí você tem o som de três erres.

O que vocês podem saber para simplificar a vida é que a grande parte das palavras prefixadas não pede hífen. Isso só poderá ocorrer - e depende ainda do prefixo - se o que vier depois do tracinho for vogal, H, S ou R.

Megacondomínio? Supercasa? Internacional? Bicentenário? Hexacampeonato? Tudo sem hífen.

Já o outro círculo hinfernal é o da derivação de sentido. Quando duas palavras se juntam para formar uma outra acepção, costuma-se pôr hífen.

O braço direito dele ficou preso no portão.

Então? Tem ou não tem? Se for o braço, não, obviamente. Mas se for o homem de confiança, tem. Braço-direito.

Outro caso duplo: quando você sofre com enxaqueca, você tem dor de cabeça. Quando alguma coisa aporrinha você, é uma dor-de-cabeça.

Existem exceções — claro, o que seria o português sem elas —, mas eu proponho uma rebelião em prol da lógica. Alguns dicionários registram sem hífen termos que ao meu ver deveriam ter, como homem forte (no sentido de ser o maior braço-direito).

Assim, proponho a regra: mudou o sentido? Hífen. Como em alto-mar.

Mar alto

Não é um Gato com J, mas mancha.

Como se chama essa novelinha que o Renato Aragão protagoniza esta semana, antes de Malhação?

Poeira em alto mar. Sentiu falta de alguma coisa?

Sim, faltou um hífen. Alto-mar tem hífen.

E daí? Como já disse, não é um Gato com J. Mas não custava nada um programa voltado para crianças escrever direito.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Metapiadas

Já falamos de pleonasmo. Hoje falaremos de metalinguagem.

Soa chato? Vocês verão que não.

Metalinguagem é a língua que serve para se descrever ou descrever outra. É a língua falando da língua.

Já uma metapiada seria a piada dela mesma.

Eu conheço duas. Uma em português, outra em inglês.

A estrangeira foi tema de um documentário que anda passando na HBO. É a Piada dos Aristocratas. Já a nossa é a Piada do Tchu.

Ambas, na essência, não têm a menor graça. Para ter sucesso, dependem de quem as conta. Seguem a mesma fórmula: têm começo e fim. O meio fica por conta do piadista. Por serem livres, permitem devaneios, fugas, improvisações, encenações. Se a pessoa for talentosa, pode ser ovacionada.

Eis a fórmula dos Aristocratas:

- Um comediante procura um produtor e diz: 'Eu tenho um número maravilhoso para apresentar no seu teatro!!!'. O produtor: 'Como é?'. E o comediante começa.

Neste ponto entra a improvisação do cara. Americanos normalmente usam e abusam de toda sorte de devassidão, podridão e bizarrices sexuais entre uma família com pai, mãe e casal de filhos. Há quem inclua animais na orgia. O primeiro intuito não é chocar, mas fazer rir da situação esdrúxula.

Terminada a exposição, o comediante tem de voltar à fórmula.

- O produtor, então, pergunta: 'Ótimo número! Como se chama?'. E o comediante responde, gesticulando à Carmem Miranda: 'The Aristocrats!'

No documentário, todos elogiam o que seria o Picasso da Piada dos Aristocratas. É Gilbert Gottfried, num evento do playboy-mor Hugh Hefner. O vídeo está em inglês. ATENÇÃO: antes de clicar, vá preparado para muita baixaria.

Já a Piada do Tchu, apesar de tão infame quanto, é infinitamente menos pornográfica, quiçá casta. Sua fórmula é aberta, permite que o comediante estabeleça tempo, local e situação. Pode ser tanto na Idade Média quanto na esquina da sua rua.

Envolve basicamente o seguinte: um cara encontra um grupo que saúda, com cânticos e vivas, um tal de Tchu. A partir daí, o piadista tem de criar situações rocambolescas para dificultar a entrada desse cara nos adoradores do Tchu. Ou então principiar uma saga pelos grotões, inventando obstáculos para retardar o Encontro (é importante frisar a caixa alta). Há quem explore condições bizarras, como ter de usar um broche do Pokémon ou calçar sapatos bege para ser aceito.

Se o Aristocratas não depende de duração, o Tchu tende a fazer mais sucesso caso seja interminável. Quando o carrasco-piadista se certificar de que a audiência já está de saco cheio, deve seguir mais ou menos isto:

- Aí, o cara finalmente chega a uma caverna/templo/galpão/parque. Lá, encontra um fortão sem camisa/encapuzado/de batina com uma tocha acesa na mão e um balde d'água/em frente a uma poça/um lago. Cânticos evocam o Tchu num volume que cresce a cada instante. O fortão, então, com uma voz de trovão, grita para a multidão: 'VOCÊS QUEREM VER O TCHU???'. No que a turba clama por sua presença, ensandecida, o fortão ergue a tocha e a enfia na água: TCHUUUUU...

Conhece uma versão inusitada? Conte para a gente.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Soletrem isso

Sugestões para queimar os neurônios dos pequenos soletradores do Caldeirão do Huck:

Auscultação - é o que o médico faz para saber se o coração está acelerado ou se o pulmão está chiando. O aparelho, o auscultoscópio, também é uma boa pedida.

Bacineta - bacia pequena.

Bacterioplânctones - conjunto de bactérias que vivem entre os plânctons. Dessa cepa vem também a bacteriotoxemia, que é a medição de toxinas desses bichos no sangue. O x é igual ao de táxi.

Isso vai demorar. Continuo depois.

Em toda a parte ou em toda parte?

É, de novo, aquela velha história.

Ao pé da letra, em toda a parte seria a parte inteira. No caso, quando a gente quer dizer que algo ocorre em qualquer lugar, o melhor é dizer em toda parte.

Duas ou três coisas sobre a reforma ortográfica

No ano passado pipocaram matérias nos jornais sobre a reforma ortográfica. O projeto, que não é de hoje, estaria para entrar em vigor em breve, o que causaria uma pequena revolução nas escolas, redações e sobretudo editoras.


Num post abaixo, falei de uma lógica da acentuação das palavras. Em tese, a reforma segue no rumo de aprumar essa lógica. A maioria das mudanças diz respeito à eliminação de acentos.

Como se chama o lugar onde as abelhas moram? Tem acento? Pois a reforma quer tirar. Escreveríamos colmeia, assim como assembleia e heroico. Uma paranoia?

Especialistas da língua criticam a proposta. Apóiam uma reforma, mas não esta, que, segundo eles, mexe pouco e mal. A Veja, ano passado, deu capa sobre o tema. Entre os argumentos a favor, está a unificação editorial nos países que falam e escrevem português. Um livro do nosso Saramago fatalmente tem uma versão portuguesa e outra brasileira, embora lê-lo sem retoques seja um dos encantamentos que ele nos reserva.

Enquanto não se chega a um consenso, muita gente pergunta: tá, mas na prática o que muda? Por enquanto, nada. Os acentos valem, o trema vale.

Aliás, acho um pecado acabarem com o trema. Mas isso é assunto para mais de um post.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

A lógica da acentuação

Decorar as regras para pôr agudos, circunflexos, tis e tremas corretamente nas palavras está entre as coisas mais irritantes da língua portuguesa.

Aposto que muitos de vocês que seguiram carreira bem longe das letras ainda se perguntam por que tiveram de aprender que paroxítonas terminadas em a, e e o são acentuadas.

E acentuação não nos torra só no colégio, não: nove entre dez concursos públicos metem os casos mais raros em suas rocambolescas provas de português.

Dou razão a todo aquele que reclamar do assunto. É preciso ter muita paciência para lidar com agudos, circunflexos, tis e tremas.

Não adiantaria aglutinar as regras de acentuação e jogá-las aqui. Também não conheço nenhuma fórmula mágica que tire todas as dúvidas. Bem, até tem: é o dicionário.

Mas lucubrei um tanto sobre isso e cheguei a uma conclusão. Lingüistas, corrijam-me se eu estiver errado.

A acentuação é uma marca das minorias.

Veja bem: você não acentua toda e qualquer palavra. Na frase anterior, apenas o você levou acento. Qual é a lógica?

Para começar a entender acentuação, você precisa primeiro saber o que são sílabas tônicas. São as sílabas mais fortes, são as que 'puxam' a palavra. Aprendemos na escola uma maneira fácil de distingui-las: chamemos por elas.

Imagine que você está numa feira livre e vê uma grande amiga sua, a Dona Palavra, comprando peixe na barraca do outro lado da rua. Você, então, grita:

- Ô Dona PaLAvra!!!

E assim você a encontra. Não a Dona Palavra, mas a sílaba tônica.

Você já deve ter percebido que nem todas as sílabas tônicas levam acento. Você não escreve palávra, nem peníco.

A lógica — a que eu me referi lá em cima —, ao meu ver, é simples. As sílabas tônicas seguem um padrão. A partir daí, surgem grupos majoritários de palavras. Por serem mais numerosas, elas ditam a regra.

O acento indica a exceção.

Alguma vez eu vi ou li que as paroxítonas são maoria em nossa língua. É paroxítona a palavra cuja penúltima sílaba é a tônica. Se você pegar as regras de acentuação, verá que somente as palavras mais doidas levam o acento. São as que terminam, por exemplo, com ã/ãs, ão/ãos, um/uns, ps e x, entre outras. Como você pode concluir, são as minorias.

E como eu explicaria por que Caju não tem acento, como consta até de placas oficiais? Mais uma vez, é a regra da maioria. Esse grupo de palavras — formalmente chamadas de oxítonas terminadas em i e u — segue o padrão de a sílaba tônica ser a última. Sempre. Por isso, xixi e Peru não têm acento.

Já as proparoxítonas sempre têm acento. Nelas, a antepenúltima sílaba é a mais forte. Como são raras, e não a maioria, precisam da marca para que último não seja lido como ultímo.

Querem um exemplo: como se pronuncia misantropo?

(Em tempo, misantropo é quem odeia a humanidade, as pessoas)

Ficaram na dúvida entre miSANtropo ou misanTROpo? Fácil. Fosse miSANtropo, teria acento, pois seria uma proparox. Como não tem, é uma parox. E a maioria das paroxes não tem!

Espero não ter embaralhado a cabeça de vocês.

Para os saudosistas que sentiram vontade de reviver as aulas de português, indico um bom resumo. E muitos de vocês cantam e se encantam com uma música famosa que explora as proparoxes.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Incidente ou acidente?

As pessoas acham que dá no mesmo, mas não dá, não.

Acidente é mole: caiu de bicicleta? Acidente. Martelou o dedo? Acidente. O carro capotou? Acidente.

Já um incidente se refere a algo não tão... físico. Uma briga, um bate-boca, um mal-entendido, uma discussão, um deixa-disso.

Tenho uma dica. Não chega a ser um efeito-caneca, mas ajuda.

Pense sempre na expressão incidente diplomático. Vocês sabem: é quando um país briga com outro, mas não a ponto de bombardeá-lo.

Outro exemplo. Ameaça de bomba num prédio. Os bombeiros mandam esvaziá-lo. Não acharam nada? Foi um incidente. Tinha uma bomba, e ela explodiu? Acidente.