domingo, 13 de abril de 2008

Procuram-se respostas...

...para a questão do procuram-se.


Este, tal como o pesadelo da flexão do infinitivo, é uma afta da língua. Encontramos pás de exemplos errados: Procura-se médicos, vende-se casas, vê-se soluções.


Ah, então toda frase que tiver o -se vai para o plural?


Lamento dizer que nada no português é simples.


E digo mais: no caso do procura-se, não há uma 'fórmula', uma dica. Há, sim, uma lógica - mas ela só funciona se os fundamentos do idioma estiverem bem sólidos.


Em outras palavras, não dá para escapar da gramática.


Mas ela não é tão má quanto parece!


Então vamos à luta, para tentar não mais errar isso.


O primeiro passo é identificar que se é esse. Essa palavrinha pode assumir várias funções, mas podemos nos limitar a apenas duas, o que realmente nos interessa.


O se pode nos dizer que não há sujeito na frase. Uma dica preciosa para achar o sujeito numa frase é pegar o verbo principal e perguntar quem ou o quê.

Vamos começar com um exemplo fácil.

O padre proferiu um duro sermão no púlpito.

Há, aqui, um verbo: proferir. Usando a fórmula, a gente pergunta: quem proferiu?

O padre. Taí o sujeito da frase.

Agora, vamos à próxima:

Vive-se maravilhosamente aqui.

Quem vive?

A frase não diz. O sujeito está indeterminado.

Outra:

Precisa-se de empregados qualificados para a obra da ponte.

Ih... e agora? Quem precisa? A frase, mais uma vez, não diz. Acha que é fácil? Então vamos lá:

Ainda dá tempo para se tomarem algumas providências.

Frasezinha feia, não? Mas o duro é que a frase está correta.

Confesso que peguei pesado, porque se trata de uma oração reduzida, mas isso é gramática demais. Vamos voltar à regra da pergunta: o que toma? A resposta, porém, aparece quando a gente muda um pouquinho a questão. O que é tomado?

Viram? Taí um lindo exemplo de voz passiva. Você se lembra: na voz ativa, a coisa faz; na passiva, a coisa é feita. Existe uma forma mais curta de escrever isso. Faz-se a coisa.

Só que, na voz passiva, existe um sujeito. No caso acima, a coisa é sujeito de ambas as frases.

Como o sujeito manda na frase, devemos segui-lo.

Conserta-se janela. O que é consertado? A janela. E se a gente pôr janelas? Aí fica assim:

Consertam-se janelas.

Tá bom, vocês querem saber se tem uma fórmula. Ter, tem, mas vai depender de uma... decorebinha. Nada que com o uso contínuo você não guarde. É a regência. Ou a regra do quem coisa, coisa alguma coisa.

Falemos de regência depois. O pulo do gato, então, é identificar na frase o quem ou o quê.

1) Demitiu-se o diretor porque se elevaram os gastos na empresa.
2) Compraram-se várias ações ontem. Implicou-se em ótimos resultados.

Vejam que no exemplo 1 temos o diretor foi demitido e os gastos foram elevados. Temos aí duas vozes passivas. Já no exemplo 2, apesar de várias ações foram compradas, temos o em, que não nos deixa dúvida: os ótimos resultados são complemento, e não sujeito, que está oculto. Afinal, o que implicou? Quem implicou? Não foram os resultados. Foi alguém ou algo indeterminado.

O tema é espinhoso. Voltaremos a ele...

Outra vez...

...o Soletrando acha uma vencedora de maneira ultraprecoce. Ontem, tal como na semana passada, nem deu para queimar neurônio: as duas derrotadas caíram na segunda fase.

Primeiro, a piauiense cometeu um cideral. Depois a potiguar me soletra uma coalisão. Bom para a mato-grossense, que me parece mais bem preparada que a classificada no sábado retrasado...

segunda-feira, 7 de abril de 2008

O pesadelo

Este assunto foi um pedido da Gisele. Este post, então, é dedicado a ela.

Toda disciplina escolar tem a sua hora do pesadelo. É aquele assunto que desafia o mais obstinado CDF. Em Química, por exemplo, eu sofria nas delicadas e instáveis equações do cálculo estequiométrico. Na Matemática, penava nas contas da geometria analítica espacial.

Qual seria o pesadelo em Português? Acredito que haja outras dificuldades nas áreas mais específicas da matéria, mas no campo experimental, no dia-a-dia, arrisco a dar um palpite: é a flexão do infinitivo. Traduzindo:

Os estudantes fugiram para não ser ou serem presos?

Não há gramático nesta terra que crave uma regra. Os mais notáveis, como Gama Cury, Ernani Terra, Paschoal Cegalla, Pasquale e Sérgio Nogueira, concordam num ponto: depende do ouvido.

Quer dizer que vale tudo?

Não necessariamente. Casos cascudos como o exemplo acima são raríssimos, mas são comuns erros iguais a este:

A escola autorizou os alunos a viajarem para Minas Gerais.

O mesmo povo que prega a avaliação do ouvido (ou a eufonia) nos casos raros é taxativo em relação à frase acima: é errado, sim. Feio. Um deslize.

Vamos então tentar pôr fim a esse mar de dúvidas.

FICA NO SINGULAR...

1 - Quando o verbo é composto.

Reivindicamos estudar. Elas pretendem comprar a loja inteira!

2 - Quando o sujeito é o mesmo.

Eles recorreram à Justiça para derrubar a liminar. Nós não temos motivos de nos orgulhar.

3 - Quando o verbo complementa outro verbo, um substantivo ou um adjetivo, ou quando complementa uma voz passiva.

Todos têm permissão de entrar no templo. Nós nos arrepiamos com a emoção de ver o show. Os candidatos estão proibidos de levar celulares. Nós ficamos cansados de ouvir falar de tanta corrupção. Os grevistas desistiram de negociar e farão piquetes, mas a empresa autorizou os gestores a cortar o ponto dos manifestantes.

VAI PARA O PLURAL...

1 - Quando há sujeito próprio.

O professor permaneceu de olho, mas não viu os alunos colarem. Os pesquisadores garantiram serem nocivos os repelentes à base de cloro.

2 - Para evitar dúvidas.

O presidente convocou os minstros para (*) sobre as novas medidas. Falar ou falarem? Depende. Se quem vai falar é o presidente, fica no singular. Se são os ministros, é falarem.

Agora é que a porca torce o rabo.

3 - Quando é voz passiva com verbo de ligação.

Lembram-se do exemplo lá de cima?

Os estudantes fugiram para não ser ou serem presos?

Não tem bem uma regra. A coisa é muito subjetiva, depende demais da avaliação da frase. No exemplo acima, a noção de voz passiva tem de estar muito viva na cabeça da pessoa. Lembram? A polícia prendeu os estudantes. Os estudantes foram presos pela polícia. Até aí, tudo bem. O problema é identificar isso no meio da frase, com um infinitivo, ainda mais amparado pela premissa de que não há norma acerca disso.

Existe um efeito-caneca para isso. Basta desmembrar a frase com um que:

Os estudantes fugiram para que não fossem presos.

Vêem como aí a voz passiva brota como cogumelos depois de uma tempestade?

Os trabalhadores aprovaram as reivindicações para serem cobradas na próxima reunião.

A banca examinadora preparará neste fim de semana os testes para serem aplicados mês que vem.

Outra dica: quando o termo em dúvida não tiver um plural anterior, como foi o caso do último exemplo, o infinitivo vai para o plural.

O assunto é polêmico, os casos, raros; mas para mim o tema detém o título de mais espinhoso do idioma. Por isso, deve ser estudado e debatido.

Espero não ter cansado vocês.

sábado, 5 de abril de 2008

Reforma esburacada

Muita gente anda me perguntando se é para deixar de botar o trema.

Não! A reforma ortográfica ainda não entrou no papel (até porque se saísse do papel é que não ia pegar mesmo)!

Só para relembrar: a reforma, em tese, já poderia ser adotada. Antes, os países que vivem o português combinaram de mudar a escrita quando todos concordassem com as regras. O que era para ser unânime acabou virando uma modesta representação, pois mudaram a 'exigência' para a aceitação por apenas três das nações. E Portugal está de fora, ainda.

O assunto voltou à tona porque, em tese, basta a assinatura do presidente Lula para que as gráficas deste país comecem a trabalhar sem parar. Os defensores da mudança querem que os livros didáticos já venham com a nova ortografia já em 2009.

Mas semana passada eu bem descobri um... buraco, por assim dizer, na tal da reforma. Até agora todos estamos reféns dos poucos exemplos garimpados nos jornais. Assim é fácil. Eu quero ver quando, no meio de uma dúvida, alguém cravará que mesozoico terá ou não acento.

O buraco é o seguinte: a reforma vai derrubar quase todos os acentos dos ditongos: ói, éi, êe... mas faltou um.

Olhe para o céu! Com a reforma, você vai escrever ceu?

Pois esse acento não vai cair.

Podem espernear, fazer um escarcéu. Não sei por que cargas d'água deixaram esse acento. Mas eu me arrisco.

Lembram-se da minha lucubração sobre acentuação? Eu havia dito que os acentos são a marca da exceção: estão aí para nos orientar quando uma palavra deve ser dita e escrita de outra forma que não a imaginada pelo senso comum.

Deve ser influência do eu e seus derivados. Falamos êu. Daí, se tirássemos o acento dos éus, como falaríamos, por exemplo, beleleu?

Minha querida professora Neide levantou essa questão. Acredito que haja muitas outras.

Façam-me o favor...

A rodada desta semana do Soletrando foi triste.

A maranhense logo de cara me tasca uma magresa. Na rodada seguinte, a amazonense inventou uma prócliser.

Pior é que a catarinense, um miniclone da Ana Paula Arósio, deu relativa sorte. A julgar pelo "pra mim estudar" que ela cuspiu na entrevista, creio que sua vitória de deu pelo maior demérito das outras.

Bom mesmo foi semana passada. A carioca e a rondonense travaram uma peleja até a décima segunda rodada, com direito a erro duplo, que levou as duas de volta ao jogo. Primeiro, lá atrás, a sergipana rodou com uma estemporânea. Normal, a palavra não é tão comum. E aí vieram séries de palavrões soletrados corretamente, como xipófagos, hortifrutigranjeiro, hexassílabo exéquias...

Até que as duas erraram. Primeiro a rondonense deu um azar do cão ao ter de soletrar exegese. O próprio professor Sérgio admitiu que a palavra é danada. Significa, por sinal, uma 'explicação detalhada'. Saiu hexegesi. Em seguida veio a desfarçatez da carioca.

Com as duas no páreo, as palavras pioraram. Detonaram um soçobrar em cima da rondonense. A palavra, um sinônimo para afundar, naufragar, virou sossobrar. Normal. Já a carioca sagrou-se campeã com cessação - outra pegadinha da competição.

Faltando apenas duas rodadas para o fim da primeira fase, arrisco um palpite na paranaense. Ela vai degluti-los todos.

segunda-feira, 31 de março de 2008

Em vez de ou ao invés de?

Sugestão do companheiro Rafael!

Essa é mais uma dúvida freqüente de nossa língua. Muitos já consideram esses dois termos como sinônimos, mas existe, sim, uma diferença.

Digamos que o em vez de seja um curinga. Você pode usá-lo em qualquer situação - e aqui já pintou um efeito-caneca. Todo ao invés de é um em vez de, mas nem todo em vez de é um ao invés de.

Isso porque o ao invés de não é tão versátil. Ele tem uma aplicação bem mais restrita. Indo ao dicionário, você descobre que a palavra invés já significa lado oposto, avesso. Quando montamos o termo ao invés de, queremos associar duas coisas contrárias.

Tudo isso fica mais claro com exemplos.

1) Eu não passei de ano. Eu fui reprovado.
2) Ele não saiu. Preferiu ficar em casa.
3) Nós íamos ao teatro, mas acabamos no cinema.

Vamos ler as três frases. Quais delas têm claramente uma idéia de oposição? As duas primeiras, certo? Nestas, podemos escrever:

1) Ao invés de passar de ano, fui reprovado.
2) Ao invés de sair, ficou em casa.

Já a última frase não reúne idéias opostas. Ir ao cinema e ir ao teatro são coisas complementares. Daí, não podemos usar o ao invés de:

3) Em vez de ir ao cinema, nós fomos ao teatro.

Outros exemplos:

Ao invés de reduzir gastos, aumentou a dívida; ao invés de chover, fez sol... e por aí vai.

sábado, 29 de março de 2008

Mais sobre a reforma ortográfica

A queda de alguns acentos já foi tema de um post aqui. Ontem o Jornal Hoje voltou a falar do assunto. A novidade? O governo quer que as novas regras imperem já no ano letivo que vem. O que isso muda na sua vida? Dizem que menos de 2%.

Acontece que Portugal ainda tem oferecido alguma resistência. Reza o acordo, porém, que basta a adesão de três dos oito países que vivem o português para se aplicar a mudança. Isso já aconteceu. Aposto, contudo, que vai rolar muita politicagem até lá.

Depois não reclamem de paranoia.

Em breve, numa banca perto de você...

Prepare-se para a batalha!!!

domingo, 23 de março de 2008

Deus e o diabo na terra dos sinônimos

Consultar dicionários pode ser uma atividade extremamente divertida!


E não me refiro apenas a palavrões que só existem na Medicina ou na Botânica. Falo das surpresas que pululam de onde menos se espera.


Sinônimos, por exemplo, podem nos surpreender. E eu me escangalhei de rir ao tomar conhecimento de duas constelações de palavras que usamos com freqüência.


A primeira é diabo; a segunda, meretriz.


Ambas têm quase uma centena de sinônimos — e não estou contando as derivações menores.

Comecemos pelo... hum. Vejam abaixo os nomes mais engraçados e escolham como chamá-lo:

anhangüera, arrenegado, azucrim, beiçudo, belzebu, bode-preto, bute, cafuçu, cão-miúdo, cpa-verde, capeta, capiroto, chavelhudo, cifé, cramulhano, demonho, demontre, diangras, diogo,
grão-tinhoso, jurupari, má-jeira, moleque-do-surrão, pedro-botelho, peneireiro, romãozinho, sapucaio, temba e zarapelho.

Agora vamos ver quantas palavras são sinônimo de Deus:

deidade, diva, divindade, nume e potestade.

Viram? Isso dá uma tese. Por que na Terra diabo tem uma centena de sinônimos e deus não tem? Porque Ele não quer que se indexe Seu santo nome em vão? Mesmo que os dicionaristas do Houaiss tenham tido certa preguiça — todo-poderoso e criador, por exemplo, constam como sinônimos, mas não dentro do verbete —, é inegável a criatividade para chamar o... cão-miúdo.

Uma pegadinha: qual o feminino de todo-poderoso? Toda-poderosa? Não. É todo-poderosa. Assim como escrevemos todo-poderosos. Tem a ver com a composição.

Agora vamos para uma constelação bem mais divertida. E que encerra uma polêmica.

alcouceira, andorinha, bagageira, bisca, bucho, cadela, caterina, courão, cróia, dadeira, decaída, égua, galdéria, galdrapinha, horizontal, jereba, lúmia, messalina, mundana, murixaba, paloma, pécora, rameira, rongó, tolerada, vadia, vulgívaga e zoina.

Acabou? Temos ainda mulher à-toa, mulher da comédia, mulher da rótula, mulher da rua, mulher da vida, mulher da zona, mulher de amor, mulher de má nota, mulher do fado, mulher do pala aberto, mulher errada, mulher perdida, mulher pública, mulher vadia...

Engraçado. Se você procurar por médica no Houaiss, vai ver que é uma "certa espécie de alfafa". Eles não dizem que é "mulher que exerce a Medicina". Então por que listar prostituta? Prostituto já não bastava, segundo a ordem machista dos dicionários?

Entre sem bater

Taí uma mensagem que me embola a cabeça até hoje.

Quando alguém dependura numa porta uma placa de entre sem bater, é para a pessoa entrar direto, sem dar aquelas batidinhas de "com licença?" à porta, ou é para a pessoa entrar e, delicadamente, evitar que a porta feche com um estrondo típico de brutamontes?

sábado, 22 de março de 2008

Vítima fatal

Vítima fatal é o caraleo!

Acredito ser essa uma das armas de destruição em massa que uns poderosos estão usando para nos dizimar. Eles apelam para uma lavagem cerebral a fim de espremer, dentro da palavra, um sentido que para mim não tem sentido. Mas pode ver: todo dia alguém comete uma vítima fatal.

O Houaiss diz que fatal é quem mata, não quem morre! Já o Aulete cedeu às pressões e admite o fatal ativo e o fatal passivo.

Meu argumento é um só: você usa vítima mortal? Ainda que se recorra à expressão restos mortais, o termo indica algo tenebroso, que tira a vida.

Para mim, a única chance de ter uma vítima fatal é quando um cara está limpando a janela, perde o equiílibrio e cai do décimo andar bem em cima de uma senhorinha de andador, matando-a na hora.

sábado, 15 de março de 2008

Soletrando dois-em-um

Minha preguiça me impediu de escrever sobre o Soletrando da semana passada.

Como tomei vergonha na cara, aproveito agora para falar das duas últimas eliminatórias.

Semana passada, uma menina esbarrou num ressucitar. Muita gente ainda tem dúvidas sobre onde tem sc e onde não tem. De todo o caso, é uma palavra comum, ainda mais em tempos de Páscoa. A menina vacilou.

Pela palavra que desclassificou a segunda menina, dá para imaginar até onde a peleja foi: septifoliolado. Hein? Quando a ouvi, não tinha a menor idéia do que significava. A garota grafou com C e levou bomba. Eu ia grafar com S, mas não de sete, como ensina o dicionário, mas sim de séptico. Não tem nada a ver. Esse palavrão vem da botânica e se aplica às folhas que têm sete 'gominhos'.

Hoje a briga foi boa, garanto. Deu um dó danado quando a menina gaúcha, uma graça, por sinal, tascou alemanzinhos. Foi uma pegadinha: plural de diminutivo derruba os iniciantes. É quase uma expressão matemática. Alemão, alemães; alemãozinho, alemãezinhos. A única forma de diminutivo no plural ir com S é quando a palavra já o tiver, como lapisinho, paisinho.

Daí travou-se um duelo entre Pernambuco e Bahia que teve direito até a subsidiária e vicissitude. Nessa, eu parei: é primeiro com SS? Tem SC? O problema se dá porque essas palavras, mesmo entre nós, redatores, são muito raras. Pois não é que a menina acertou de cara? Fui atrás do dicionário. Vicissitude é uma sucessão de mudanças. Crei uma dica para não errar mais: é o vício de mudar. Vício é com C; logo, vicissitude também.

Se a palavra acima não me é comum, a que derrubou a pernambucana vira e mexe me aparece: pára-choques. Sabem como é, acidentes eu tenho todo dia no jornal. A menina acertou o mais difícil — o acento —, mas errou no hífen. Pôs párachoques. E parou por aí.

sexta-feira, 14 de março de 2008

Bem-me-quer...

Eu tenho uma fórmula infalível para as confusões entre bem/bom/mal/mau!

É normal trocar um pelo outro. Afinal, ninguém tem a obrigação de saber quem é advérbio, quem é adjetivo. Aliás, desconhecer o que é advérbio não é crime, vamos combinar!

Vamos ao que interessa. A dica é sempre pegar o caminho do bem. Se você tem dúvida entre mal e mau, pense no contrário: os bons sempre vão fazer a diferença.

- Aquele sujeito não presta. Sempre quer levar os outros para o (*) caminho.

E aí? Mal ou mau?

Pegue o caminho do bem. Seria o bem caminho ou o bom caminho?

Outra:

- Caraca, hoje eu estou um trapo. Acordei me sentindo (*) à beça.

O que eu quis dizer com essa brincadeira? É muito mais fácil você identificar entre bom e bem o que soa melhor; nossos ouvidos dirão. Daí, é só se lembrar dessa regrinha:

Mau - O u é quase um o. Então, o contrário de mau é bom.

Mal - O l é comprido como um e. Então, o contrário de mal é bem.

Entendido?

Pegadinha malcriada

Confesso que titubeio em relação a palavras que começam com mal-. Têm hífen? São coladas? O jeito é ir ao dicionário.

Contribui para essa dúvida uma pegadinha danada. Malcriado, por exemplo. É o indivíduo que faz muita... malcriação?

Pois nem toda a peraltice do mundo há de fazer uma coisa dessas. O correto, segundo os alfarrabistas, é má-criação.

E vocês verão que faz sentido. Qual o contrário de malcriado? Bem criado. Mas não existe bem criação, existe boa criação.

Querem ficar ainda mais confusos? O dicionário registra malcriadez. Não, as regras não foram mandadas às favas. Isso daí é uma derivação própria...

quarta-feira, 12 de março de 2008

Nada haver ou nada a ver?

Já vi muita gente escrever chagas do tipo:

- Uma coisa não tem nada haver com a outra.

Sim, é uma chaga, mas não vamos crucificar ninguém por causa disso. Há uma lógica para o erro: haver está freqüentemente associado a existir. Daí, a pessoa acha que uma coisa não coexiste com a outra e manda esse Gato com J.

Não, nada a ver é uma expressão. Significa ter relação, ter vista com.

Mas nada haver é errado?

Em Portugal, onde haver também é sinônimo de receber — daí deriva haveres —, se fala ter a haver. Donde a gente chega a nada a haver como sinônimo de nada a receber.

Parônimos inúteis

E por falar em escangalhado, palavra que consta da minhas preferidas, acabei de descobrir que ela tem um parônimo.

Escangalhar é quebrar, causar desarranjo. Sei lá, soa mais simpático que avariar. Acho que escangalhar sempre está associado às artes de um menino malcriado.

Escanganhar não tem nada a ver. É o ato de retirar as uvas da haste. Daí deriva uma escanganhadeira. Lindo, não é?

Outra da Itália

As línguas latinas se parecem, mas nem tanto.

A gente, dentro da nossa ignorância, acha que sabe traduzir livremente por aí as palavras só porque acredita que não há diferenças gritantes.

Este caso não se trata de uma diferença gritante, mas é engraçado.

No orelhão, minha mãe penou para conseguir fazer uma ligação — talvez porque, à época, estávamos acostumados a telefones públicos menos modernos. Na terceira tentativa vã, ao pôr o fone no gancho, ela viu no visor algo como scanciare, scangliare, eu sei lá. Quem souber italiano por favor me ajude. Mas aí ela perguntou:

- Scanciare é escangalhado?

Não, não era. Por intuição, essa palavra significava tire do gancho. Não estava escangalhado.

Noiva-cadáver

Essa é velha. Diria que é tão ou mais anciã quanto a confusão envolvendo bicha/fila em Portugal.

Uma vez, na Itália, vendo um comercial de TV, eu me surpreendi. Era um anúncio de um sabonete, não me lembro bem, mas era típico: tinha aquela moça recém-saída do banho, pele limpa, passando o tal produto. No fundo, a narração destoou:

- ...com'è mórbida...

Engraçadíssimo! Mórbido, em italiano, quer dizer macio. Fofo igual à noiva-cadáver.

terça-feira, 11 de março de 2008

Iósceles

Foi o meu camarada Gustavo de Almeida quem percebeu o escorregão. Sim! Confesso o crime!

Eu jurava que isósceles não tinha o primeiro S. Será que meu livro de Matemática estava errado? Será que o detalhe me escapou? O próprio Sérgio Nogueira admitiu que a raiz iso- é traiçoeira, que não há uma regra clara sobre quando temos o SC.


Isso me faz lembrar um velho teste de percepção. Está em inglês, mas quem não sabe a língua de Shakespeare também pode fazer. Quantas letras F há na frase abaixo?

FINISHED FILES ARE THE RE
SULT OF YEARS OF SCIENTI
FIC STUDY COMBINED WITH
THE EXPERIENCE OF YEARS...

Três? Não, seis. Já provaram que o F em of não é, digamos, percebido.

Pois eu não percebi que o primeiro S de isósceles faz muita falta, ao contrário do segundo.

Em tempo: a folga de uma semana foi involuntária. Retomarei os trabalhos e aguardo a visita de vocês.

sábado, 1 de março de 2008

Agora há pouco, no Soletrando

Eu jurava que isósceles não tinha o primeiro S. Será que meu livro de Matemática estava errado? Será que o detalhe me escapou? O próprio Sérgio Nogueira admitiu que a raiz iso- é traiçoeira, que não há uma regra clara sobre quando temos o SC.

Em todo o caso, o que derrubou o guri do Tocantins não foi o SC. Ele soletrou ixóceles. Gato com J? De modo algum. Ele deve ter pensado em executar, em que o inconstante X tem som de Z. Foi, para mim, a mais ingrata palavra da rodada.

Já o candidato do Distrito Federal pecou ao tascar ombridade, sem H. Mais um caso de erro por desconhecimento de vocabulário.

Já o representante mineiro, um humilde jovem do Vale do Jequitinhonha, falou a frase de efeito mais honesta e tocante até agora. Não me lembro exatamente, mas era algo assim: 'Apesar da pobreza, o Vale do Jequitinhonha tem gente de valor'. E ele provou esse valor ao corretamente soletrar extensão. Ainda que a edição da apresentação lhe tenha sido extremamente favorável.